Experiência de violência | Maria

Foto de Norbert Tóth via Unsplash

Após algum tempo requisitada numa estrutura cultural, decidi “regressar à escola”. Fui colocada numa que integra 2.º, 3.º Ciclo de Ensino Secundário. A oferta formativa do Secundário incluía o Curso de Artes, o que jogou a favor nos 2/3 anos letivos subsequentes: dava as disciplinas mais criativas e, apesar de poucos, tive a sorte de me terem calhado alunos respeitadores, bem-humorados, criativos e com os quais consegui estabelecer uma ligação pedagógica bastante positiva. 

Eis que muda a Direção. O Curso de Artes é abolido, com a justificação de que não havia número suficiente de alunos para preencher uma turma. Treta. Mas eu ainda podia apoiar o Grupo de Teatro (também sou da área) ou outro, como o de Artes Plásticas e isso ainda me animou. Na reunião de Grupo soube que o Núcleo de Teatro seria dirigido por alguém que nem ao teatro ia e que não haveria Núcleo Artes Plásticas. O meu horário foi preenchido com…10 turmas, uma de profissional (11.º ano) e as restantes do 7.º e 8.º ano! Fui à direção perguntar a razão de me darem tantas turmas, já que eu tinha competências para coordenar tão variadas áreas extracurriculares. O novo diretor nem sequer olhou para mim, continuou a escrever ao computador e apenas disse: “Teve que ser para completar o seu horário”. Usei de novo o argumento de ser uma professora “multitask”. A mesma resposta, a mesma atitude de evitamento de contacto visual.


Das 10 turmas, metade tinham alunos autistas ou com outras necessidades educativas, num total de 15 jovensUma, em especial, tinha 5 alunos nestas condições, sendo os restantes uns autênticos selvagens: um deles até se masturbava em plena aula. Fui à direção pedir apoio. Resposta do indivíduo (já nem sequer uso a designação “diretor”): “Tem de ser você a controlar os seus alunos”. As participações acumulavam-se. Nada. Num dia, um dos piores da minha vida de 30 anos de docência, tive de chamar alguém da direção. O indivíduo foi, a contragosto. Deu um sermão inócuo e, para meu espanto, ficou a observar-me do corredor. Perguntei-lhe porquê. “É para ver como conduz a aula”. Que eu saiba, a era das aulas assistidas já tinha passado.


No 2.º período eu já ia para a escola a chorar. Preenchia grelhas atrás de grelhas. Reuniões sem fim. Mas a pressão do indivíduo não diminuiu: colocou-me como secretária de uma DT. Alguém que ele sabia que iria fazer-me a vida negra. Eu perguntava-lhe todo o santo dia se precisava de ajuda e ela que não, que não. Para meu espanto, foi queixar-se de mim à direção com a justificação de que eu “não a ajudava”. Um dia, a internet da escola ficou em baixo. O meu email não estava a receber o que deveria – burocracia sem qualquer interesse. O indivíduo irrompe pela sala onde eu estava, aos gritos, a culpar-me de não responder às mensagens. Nada do que eu dissesse o acalmava. Diante de colegas, alunos, funcionários e pais, continuou a gritar, a ameaçar, a chamar-me de irresponsável, entre outros epítetos. Foi o fim. Eu já estava em “burnout”, e quando fui ao médico pedir ajuda, ele simplesmente me disse: “Este ano não volta à escola”. No seguinte regressei à instituição cultural, de novo em regime de requisição. Finalmente o meu trabalho é considerado, recebo elogios das chefias e, melhor, sou livre de usar a minha criatividade.


Num destes dias tive de me deslocar à escola para ir à direção, a qual entretanto mudara. Esbarrei com o indivíduo, que parou para me cumprimentar, com um sorriso de orelha a orelha e a perguntar como estava, como se nada para trás houvesse. Dirigi-lhe um mero “bom dia” e segui caminho. A lei sobre o assédio moral no trabalho tinha acabado de sair. Estava eu na direção, quando o vejo espreitar à porta. Ele bem sabia o que tinha feito.

 

Maria

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